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{Oneshot} That Boy - Parte I de II

por sacha hart, em 25.05.14

 

Although I had never spoken to him, there was something intriguing about the boy who passed by me in the halls every day.

 

 

       Era apenas mais uma quinta-feira entre tantas outras que preenchiam o ano lectivo. Os corredores da escola estavam lotados, culpa da chuva ininterrupta que se fazia sentir no Milwaukee há já três dias.

       Eu estava farta de chuva. Irritava-me estar sempre molhada e não poder andar livremente pela rua, colhendo a luz do sol. E também não gostava nada de estar presa dentro do liceu. As pessoas são barulhentas e o cheiro da chuva, húmido e bafiento, entranha-se por todo o lado.

       Naquela quinta-feira estava apenas a fazer o meu caminho até ao ginásio. Trazia os livros ao peito e uma mala nas costas. Outra coisa que odeio é ter aulas de educação física com este tempo. Só quero é estar confortável e quente nas minhas roupas, não andar a correr de um lado para o outro em fatos de treino que nem gosto de vestir. Mas não era nisto que pensava enquanto atravessava a maré de gente. Pensava nele.

       Junto a um cacifo cujo número eu decorara, lá estava ele. O nosso caminho cruzava-se muitas vezes e, inevitavelmente, o nosso olhar também. Apesar de nunca ter falado com ele, havia algo de intrigante no rapaz que passava por mim todos os dias nos corredores. Ele não era como todos os outros, fizesse isso sentido ou não.

       - Hey Neryn, vens mais depressa ou não?

       Pisquei os olhos quando vi entre todos aqueles seres humanos o meu melhor amigo Jeff. Nem me apercebera que estava à minha espera. Andei mais rápido para chegar até ele e pelo caminho, na tentativa de ultrapassar tantos alunos, choquei contra o tal rapaz. Os meus livros estavam bem seguros contra o meu peito, já os deles esparramaram-se pelo chão ladrilhado do liceu, ultimamente molhado e lamacento.

       - Oh, penso imensa desculpa! – Lamentei, horrorizada com o que tinha feito. Aprontei-me logo a apanhá-los e vi que havia folhas soltas, também suas, pelo chão. Eram rabiscos, desenhos mas não tive oportunidade de os ver melhor. O rapaz já os agarrara – Desculpa.

       - Não faz mal – Murmurou, sem sequer me mirar – Acontece.

       Se eu fosse menos desajeitada, não acontecia. Entreguei-lhe os livros que apanhara do chão – Toma, e faz mal sim. Peço desculpa. Agora tens os livros sujos – Mordi o meu lábio inferior. Sentia-me tão culpada por não ter tido mais cuidado – Deixa-me limpar-tos – Pedi, na tentativa de remendar o que fizera. – E os teus desenhos… Deixa-me fazer alguma coisa para compensar.

       Desta vez ele olhou-me directamente. Deu-me oportunidade de ver melhor as íris acastanhadas que o caracterizavam. Ele tinha um brilho doce e reservado no olhar, como eu sempre imaginara ver.

       - Não é preciso, obrigado. – Pegou nos livros e deixou-os no cacifo recém-aberto, sem sequer se dar conta dos danos que eu causara – Tenho a certeza que sobreviveram.

       Aquilo arrancou-me um sorriso, que apenas foi desfeito quando ouvi Jeff lamuriar-se sobre “aquele gaja até aqui demora mil anos a chegar”. Que impaciente.

       - Desculpa mas uma vez. Eu tenho de ir – Sem saber que mais dizer, retomei o meu sorriso por breves segundos durante os quais o meu olhar e o dele não se deixaram de fitar. Só então me afastei e fui ter com Jeff.

       Agora não só sei como realmente é o seu olhar de perto, como também o melódico tom da sua voz.

 

 

       Depois de uma longa aula de educação física, eu estava estafada e suada. Felizmente aquela tinha sido a minha última aula e dali ia directa para casa. Despedi-me de Jeff ainda dentro do pavilhão e segui para os balneários.

       Lá dentro estavam algumas raparigas a acabar de se vestirem. Eu fiquei a um canto, a mirar distraidamente o telemóvel enquanto elas acabavam de se arranjar e saíam. Só então despi as minhas roupas e agarrei na toalha.

       Já debaixo da água do duche, continuei cautelosa e alerta. Se havia problemas que tinha, era o medo que alguém me visse despida. Não queria que ninguém – e era mesmo ninguém - visse a cicatriz que tinha. Uma longa linha branca que ia desde a minha cintura até ao joelho. Odiava aquele traço do meu corpo e não queria que ninguém o testemunhasse.

        Saí do duche enrolada na toalha. O balneário continuava vazio e no entanto eu tinha a sensação bizarra que alguém me via. Isso fez o meu coração bater mais depressa, o receio percorreu o meu corpo num arrepio.

       - Está aí alguém? - Só ouvi o som do eco e alguns barulhinhos, mas nada que denunciasse uma presença humana.

       - Estás a ser tolinha, Neryn – Repliquei a mim mesma.

       Vesti-me mais rápido que o normal e nem sequei o cabelo. Não queria estar mais tempo naquele balneário. Saí disparada e, aos poucos, tentei descontrair. No entanto, a sensação de que alguém me vira perdurou. Só esperava estar errada.

 

       

       Na seguinte manhã de sexta-feira, o dia estava promissor. Não havia nuvens negras no céu, apenas raios de sol quentes e convidativos. O estado do tempo acordou a minha boa disposição mas não foi o único. Logo de manhã decidira que ia voltar a falar com o rapaz. Era uma tolice minha nem sequer ter perguntado o seu nome. E, mesmo que falasse, não significava nada a não ser o início de uma possível amizade, certo? Não tinha nada a perder.

        Entrei na escola de queixo erguido. Queria poder visualizar toda a gente, sabendo, claro, que procurava alguém especifico. Não o vi. Nem naquele momento, nem na hora de almoço, nem mesmo na última hora. Não o vi o dia todo e um mau pressentimento alojou-se no meu peito.

       Na hora de saída, fiquei perto da porta. Jeff passou por mim e perguntou-me se queria boleia – Não, obrigada Jeff. Estou à espera de alguém – Ele ainda tentou questionar mas eu fugi à sua pergunta, despedindo-me dele com um beijinho.

       Durante o dia tornou-se claro que o rapaz não viera à escola. Por isso tentei lembrar-me das pessoas que costumavam dar-se com ele. Sendo que eram do ano superior ao meu, não sabia bem a quem recorrer. Não era costume meu dar-me com os seniores.

       - Hey! – Chamei a atenção a um rapaz moreno, de casaco de cabedal. Este sim, já o tinha visto com o rapaz e muitas vezes, aliás – Eu...hum – Dei-me conta que não sabia o que dizer agora. Nem o nome dele eu sabia - Eu estou à procura do teu amigo. Sabes, aquele que é mais ou menos da tua altura, cabelo castanho, olhos também castanhos… ah, e usa uma mala azul gasta. – Sentia-me uma idiota naquele momento.

       Se me achava uma idiota, não sabia, mas o rapaz riu-se e assimilou o que eu lhe estava a perguntar. Tinha um olhar divertido, como se esperasse que eu lhe viesse perguntar isto. Era, no mínimo, estranho.

       - Ele ficou em casa hoje. Porque perguntas? Não sabia que se conheciam.

       - Ah, bom… Não nos conhecemos – Admiti, se bem que eu sentia conhecer um bocadinho dele, havia algo – o quê não sei – entre nós, e no dia anterior eu tinha confirmado isso. – Ontem, sem querer, fiquei com uma pasta dele e queria dar-lhe.

        - Eu posso ficar com ela e dar-lhe depois.

        - Hum… Preferia ser eu a devolvê-la pessoalmente – Disse logo de seguida – Não leves a mal – Acrescentei – Será que me podias dar a sua morada?

       O amigo franziu o sobrolho até finalmente me indicar o endereço. Reconhecia o nome da rua e sabia como chegar lá. Não ficava a mais de vinte minutos a pé ali da escola.

        - Obrigada – Agradeci e afastei-me.

       Segui caminho pela direcção contrária à que normalmente seguia. Contra o peito levava a capa azul dele. Não era a pasta em questão que fazia tenções de entregar mas sim o seu conteúdo. Lá dentro tinha descoberto inúmeros desenhos a lápis, alguns mesmo coloridos. Eram arte, do tipo mais bonito que já vira. Queria entregá-la pessoalmente. Era a minha desculpa para finalmente ter uma conversa a sério com ele.

 

               Continuação e conclusão → That Boy, Parte II

 

Como já devem ter reparado, esta é apenas a primeira parte da oneshot. Decidi não colcar tudo junto porque são ao todo seis páginas do Word e não vos queria maçar. Esta oneshot foi, como devem ter percebido, inspirada na imagem que me foi cedida pela Sara ♡ e agradeço-lhe imenso! Para além da imagem, inspirei-me também na frase que vêem por baixo. Espero que tenham gostado desta primeira parte! A segunda virá nos próximos dias, consoante os comentários.

Ah, e devo dizer que esta não será a única oneshot feita. Há mais duas imagens que vocês me "ofereceram" e despertaram um bichinho em mim. Depois vêem!

 

 

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{Oneshot} Findind Love in Bora Bora

por sacha hart, em 14.04.14

 

 

Tyson Beaumont era um homem corpulento, de tez morena e cabelos castanhos desgrenhados, sempre revoltos de modo a condizer com a sua personalidade arrojada. Naquela noite, ao seu habitual aspecto juntava-se uma aura negra, triste. Quem passava por ele quase sentia o sofrimento que lhe corria nas veias.

Ele, claro, não o admitia. Nem para sim mesmo. Como podia um homem independente e viril como ele admitir que se sentia assim por uma mulher? Uma fêmea encantadora que o enfeitiçara apenas com o olhar.

Vai desejar mais alguma coisa?

A voz do barman fê-lo concentrar-se em algo mais do que o copo vazio e as pedras de gelo que lá dentro derretiam. Inclinou o copo mais para a frente. – Encha-o novamente.

O barman assim o fez. No espaço de segundos o copo voltou a estar cheio com o líquido transparente e ácido. Tyson bebeu-o num gole só, mal sentindo o ardor queimador na sua garganta. Essa sensação corrosiva não chegava sequer perto da dor que lhe preenchia o peito.

Algo mais forte – Pediu ao barman. Encolheu-se no seu canto do balcão enquanto esperava. Mirou o relógio. Faltavam cinco horas para o seu voo, e pouco mais de duas até ao fecho do mar.

Que se lixe, pensou. Era a sua última noite na ilha. E não lhe ocorria motivo algum para a passar sóbrio.

 

Alguns dias antes…

O veleiro tinha chegado finalmente ao sul. A Polinésia Francesa saudava-o com um sol brilhante e uma visão tão perfeita que podia ser um sonho. Quando Tyson desembarcou e sentiu sob os seus pés a fina areia de Bora-Bora, pensou finalmente ter chegado ao Paraíso.

Nessa mesma noite percebeu que estava certo. Aquele era o paraíso na terra e a bela morena à sua frente não podia ser senão uma miragem do ser mais bonito que alguma vez tinha visto.

- Como te chamas? – Perguntou-lhe sem conter um sorriso. Estava completamente deslumbrado.

- Ainhoa – Respondeu-lhe timidamente, sem o desfitar. O olhar que aquele homem  lançava causava-lhe um remoinho no estômago, algo que nunca sentira antes. – Porque me olhas assim? Peço desculpa se te ofenso ao perguntar isto.

Ele riu-se e ergueu a mão até ao rosto dela. Fê-lo tão delicadamente, como se tivesse medo que ao tocar-lhe ela fosse desaparecer – como se um sonho fosse!

És tão bonita, maravilhosamente linda. É por isso. Nunca vi alguma mulher que chegasse aos teus calcanhares.

- Ah, lisonjeias-me mas creio que já bebeste demasiado Escorpião por uma só noite – Apontou para a bebida fumegante que ele bebia. Tinha sido preparada por ela. Sabia tão bem quão potente era o seu efeito.

- Nada disso… Ainhoa… Dizem que nesta ilha vivem deuses. Diz-me, querida Ainhoa, deixas-me provar algo que um mero mortal não deve? Deixa-me provar-te pois és tudo aquilo que alguma vez procurei na minha vida.

Ele era doido, pensou. E no entanto o desejo feroz que via no olhar de Tyson assim como as palavras aliciantes que lhe dirigia caíam bem fundo em si. Ainhoa viu-se então a assentir, a diminuir a distância entre os dois e a aproximar os seus lábios dos daquele homem forte e lindo.

 

De caminho para ao aeródromo, Tyson andava aos zigue-zagues por entre as palmeiras. Não via nada à sua frente. Era tudo uma mancha. Tinha exagerado no álcool. Bebera até sentir-se vazio, dormente. Assim suportava melhor tudo.

Só não conseguia parar de pensar nela. Que inferno. Na sua mente enevoada, relembrava os contornos do corpo de Ainhoa, a  forma do seu olhar quando se entregara a ele. Bastara uma única noite para se apaixonar por aquela rapariga. Por ela moveria céus e montanhas… se ela o quisesse. Tinham passado as últimas duas semanas juntos. Descuidara-se completamente da razão que o levara a Bora-Bora e por isso tinha de ir imediatamente até Boston, a sede da sua empresa. Ia deixar o seu veleiro para trás, a ilha… e ela. Ainhoa não quisera ir com ele. O sentimento era o mesmo que levar com um tsunami em cima. Estava arrasado.

- Tyson! Pára! Tyson!

Agora até a voz dela ouvia. Óptimo, estava a ficar louco.

Até tudo ficar silencioso e negro.

 

Ao abrir os olhos, Tyson sentiu-se novamente no Paraíso. Não sentia nada nem ouvia nada a não ser a sua doce Ainhoa perto dele, murmurando graças por ele estar vivo. Estranho, pois ele só podia estar morto para ficar num sítio como este. E ele definitivamente queria ali ficar…

- Mr.Beaumont? Está a ouvir-me?

Só aquilo estragou a sua visão de perfeição. Tyler forçou-se a desviar o seu olhar de Ainhoa até ao homem ao seu lado. Completamente vestido de branco e com um olhar grave, só podia ser um médico e não olhava para ele com cara de muitos amigos.

- Sabe o que se passou, Mr.Beaumont?

Tyson abanou a cabeça. Não sabia nem queria saber.

- O senhor esteve perto de estar induzido em coma alcoólico. Ia morrendo afogado na praia se esta jovem não o tivesse resgatado da água. E mesmo assim só sobreviveu sabe-se-lá como. Tinha os pulmões cheios de água e um nível de álcool no sangue impressionantemente elevado. Compreende o que lhe digo?

- Sim, sim… - O olhar de Tyson voltou para a bela morena. A sua deusa…

Tenha mais cuidado para a próxima – Avisou o médico, pouco satisfeito por Tyson não lhe fazer caso. Abandonou a sala em passadas largas, fechando a porta ao sair.

Tyson e Ainhoa ficaram sozinhos no quarto de hospital. Ele olhava-a com admiração e adoração, como se se tratasse do primeiro momento em que a via.

- Bem dizia que só podia ser uma deusa. Salvaste-me a vida.

As palavras dele levaram lágrimas aos olhos dela. Ainhoa tinha levado o maior susto da sua vida. Vira Tyson à parca luz da lua, caminhando ao largo do passadão de madeira. Ele chegara até à ponta e nem parecia aperceber-se disso. Caíra ao mar e nem lutara para vir à superfície. Ela, claro, atirara-se imediatamente e tinha feito tudo ao seu alcance para o salvar. Não era deusa nenhuma, era uma mulher apaixonada e nem por sombras ia deixar o seu homem morrer na sua praia.

O seu homem. Resumia-se a isso, não era? Odiava Tyson por se ter inserido tão avassaladoramente na sua vida sem ser convidado a isso. Ele metera-se, nem lhe dera chance. Caíra redondamente apaixonada por ele e só agora é que percebia que não tinha alternativa sem ser aceitar isso. Na altura em que Tyson lhe pedira para ir com ele, tentara resistir ao sentimento. Agora não o fazia. Não o queria perder… como quase acontecera.

Porque choras? – Perguntou-lhe ele.

Por causa de ti, idiota! Podias estar morto agora mesmo! Raios, Tyson, nunca mais me faças passar por um susto destes.

Inesperadamente, ele começou a rir-se. A rir-se!

- Tyson!

- Desculpa, desculpa… Estou a rir-me porque, bom, pensei que nunca mais te voltava a ver– O tom dele era sério, ainda que tivesse um sorriso nos lábios – Engraçado, enquanto me afundava no mar foi em ti que pensei. Não me importava de ir se já não te podia ver mais. Isto é quão profundamente me afetas.

- Nunca mais voltes a pensar dessa maneira. Quero-te vivo e de boa saúde. De outra forma não apanho o avião para Boston contigo. Isto é quão profundamente me afetas. Quero largar tudo e ir contigo.

Tyson arregalou os olhos e mexeu-se na pouco confortável cama de hospital.

- O que é que te fez mudar de ideias?

Ainhoa olhou para ele – ali deitado, depois de ter estado entre a vida e a morte. A perspectiva de o perder para sempre fizera-a consciencializar-se de que não o queria perder de todo e que quando Tyson acordasse ia lutar para o voltar a ter.

- Tudo. Lamento ter demorado tanto a fazê-lo.

- Antes tarde do que nunca – O sorriso dele vibrava – Antes tarde do que nunca, Ainhoa. Agora vem cá, aproxima-te de mim.

Ela assim o fez. O olhar dele posto nela fazia-a arder. Arder de paião. E ele olhava-a assim desde o início. Nunca deixara de o fazer. Havia um fogo intenso e crepitante entre ambos.

Ao finalmente juntarem os lábios e enrolarem-se num beijo cheio de sentimento, perceberam mais uma coisa. Que aquele fogo era eterno, uma dádiva dos deuses e que cuidaram de manter a chama acesa até ao fim. 

 

 

Então, o que é que acham? :D

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