Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



{Oneshot} That Boy - Parte II de II

por sacha hart, em 26.05.14

 

Although I had never spoken to him, there was something intriguing about the boy who passed by me in the halls every day.

 

       Demorei quase meia hora a chegar até à casa dele. Estava em pior forma do que pensava. Quando lá cheguei, já arfava. Tive de descansar durante uns minutos para me compor.

       A casa dele era simples. Branca com azulejos vermelhos. Lembrava-me a minha própria casa. Gostei da familiaridade que me transmitia, ajudava-me a ficar menos nervosa – como se isso fosse possível!

       Bati à porta e recuei um passo. Ouviu-se um “Já voooooou” vindo de longe. Passados poucos segundos, a porta abriu-se e revelou-o com um ar surpreso, com um aspecto que eu não esperara de todo.

       Eu não consegui esconder o meu ar chocado e avancei para perto dele, não imaginando sequer quão desapropriada e desajustada estava a ser. Com cuidado, segurei no seu rosto e passei levemente os meus dedos pelas mazelas que ele tinha na cara. O seu rosto estava marcado por nódoas negras, algumas feridas a cicatrizar e o seu lábio estava cortado. Um pouco por todo o lado a sua cara estava inchada. O meu coração encolheu-se instintivamente. 

       - O quê é que te aconteceu? – Perguntei – Estás bem?

       Apesar de não nos conhecermos bem e de eu estar a agir como alguém que o conhecia, ele não se afastou. Se calhar, com um pouco de sorte, ele não me acharia uma lunática por estar tão perto dele, desta forma, preocupada como se ele fosse alguém mais para mim.

       - Eu estou bem, são só umas nódoas negras. O que estás tu a fazer aqui? – Ele estava genuinamente surpreendido com a minha visita.

       - Eu, huh… - Recuei um pouco e deixei de segurar o seu rosto. – Fiquei com isto – Abanei a capa azul que ele reconheceu de imediato – Mas agora quero que me contes o que é que se passou contigo. Ontem não estavas assim e isso não são só algumas nódoas negras – Retorqui, preocupada com ele. Para além disso a minha intuição dizia-me que eu tinha de saber. Maldito sexto sentido.

       O rapaz resignou-se e convidou-me a entrar. Algo nele mudou subtilmente, mas não consegui perceber o quê. Quando entrei, apercebi-me da confusão que estava na sala. Havia dois miúdos aos gritos um com o outro, concentrados num jogo de carros da playstation.

       - Vamos para o meu quarto, lá os meus irmãos não nos incomodam.

       Daquela é que eu não estava à espera. Se fosse com outro rapaz, não teria subido mas com ele sentia-me à vontade para o fazer. Segui atrás dele até entrarmos no seu quarto. Bom, pensei, é mesmo um quarto de rapaz. Com paredes azuis e cinzentas, uma cama mal arrumada e uma secretária a esbordar de papéis. O que mais me chamou a atenção, porém, foi o mural que havia pendura e estava completado de desenhos.

       Lembrei-me que ainda tinha a pasta dele e passei-lha – Tu tens um talento enorme – Murmurei, olhando para ele – Desculpa, a curiosidade foi maior e espreitei os teus desenhos.

       - São apenas rascunhos, por agora – Disse ele, como se os seus desenhos não fossem ainda bons o suficiente.

       - Eu adorei.

       Era impressão minha ou ele ficou envergonhado? Não consegui realmente perceber porque ele desviou o seu olhar do meu e disfarçou muito bem.

       Lembrei-me então que ainda não sabia o seu nome – Ainda não me apresentei. Cheguei aqui e…. bom, espero que não me aches uma maluquinha qualquer que se veio intrometer.

       Ele soltou uma risada baixa e voltou a fixar o seu olhar brilhante no meu – Não te acho maluquinha, Neryn.

       -  Como é que sabes o meu nome? – Perguntei. E se ele sabia o meu nome, porque não sabia eu o seu?       

       - Conheço o teu irmão. Costumávamos jogar juntos.

       - Na equipa de lacrosse? – Perguntei estupefacta. Não me lembrava nada de o ter visto antes, sem ser no liceu .

       - Na equipa de lacrosse da primária – Riu-se – Provavelmente não te lembras de mim. Era sempre aquele desajeitado que perdia a bola.

       - Não…não me lembro – Lamentava-o – E o teu nome? Como te chamas? – Perguntei, talvez demasiado apressada, culpa da curiosidade.

       - Sou o Jeremy. Também me tratam de Jer.

       Jeremy. Queria ver como aquele nome soava dito pelos meus lábios mas não me atrevi. Fiquei a olhar para ele, sem saber muito bem como reagir. Algo nele desconcertava-me e não gostava dessa sensação.

       - Então, Jer, vais contar-me o que se passou contigo? Parece que fizeram de ti saco de murros.

       Jeremy ficou com uma expressão mais séria – Algo do género – Acabou por dizer, deixando-me chocada. Eu tinha dito uma piada, não esperava que fosse essa a razão verdadeira. Ele andou até à sua secretária, ficando muito próximo de onde eu estava e agarrou em qualquer coisa – Estive à luta por causa disto.

       Quando ele abriu a mão, revelou um Iphone preto. Em tempos devia ter sido um belo espécimen da Apple. Agora era um pedaço de telemóvel inútil, com o vidro rachado.

       - Não entendo. É teu? – Perguntei, olhando-o.

       O olhar dele era um mistério. Não conseguia decifrar nada dali. Jeremy abanou a  cabeça negativamente e clicou numa tecla qualquer pois o ecrã rachado revelou uma luz azul e a imagem e um Ferrari.

       - Eu não te ia contar nada mas… - Antes de prosseguir, indicou-me que me sentasse na cama e eu assim o fiz, continuando sem perceber o que se passara – Este Iphone não é meu, é de uns gajos quaisquer da escola. Estavam a fotografar algo que não deviam e a única maneira de os parar foi à força.

       Um arrepio voltou a percorrer-me. Um arrepio frio de antecipação. Algo estava errado, eu tinha esse pressentimento.

       - O quê que estavam a fotografar, Jeremy?

       Ele hesitou – Tu. Estavam a fotografar-te a ti.

       O meu sangue gelou - O quê? – Perguntei, num tom estridente. Como era isto possível? E onde, porquê? Com medo de saber a resposta, fiz-lhe outra pergunta – Onde, Jeremy? Onde e quando me estavam a fotografar? – Eu já sabia, contudo.

       - Ontem, ao último tempo. Há parte de uma janela partida nos balneários e eles são uns aproveitadores – Um gemido de pânico fugiu da minha parte – Mas ficou tudo resolvido. Eles não tem nenhuma fotografia, eu fiquei com o Iphone e ...

       Não o deixei acabar. Levantei-me e abracei o meu corpo, não conseguindo conter as lágrimas. A minha privacidade fora violada. Eu não fazia ideia de quanto tinham visto de mim mas de certeza que tinham visto a minha cicatriz e Jeremy… Ele também a deve ter visto, de certeza. Comecei a tremer só de pensar nisso.

       - Tu viste alguma das fotografias do Iphone? – Perguntei baixinho, entre lágrimas que caíam pelo meu rosto.

       Soube, apenas pelo seu olhar, que ele vira algo. O meu choro intensificou-se. Estava desolada, sem acreditar que me tinham expiado de tal forma, e também envergonhada por aquilo que tinham visto. Senti-me desnorteada até os braços de Jeremy me envolverem e puxarem contra o seu corpo alto e atlético. Agarrei-me a ele e chorei aquilo que tinha a chorar até conseguir parar de tremer. Não sei quanto tempo demorou, mas Jer esteve sempre a confortar-me e foi o melhor que podia ter pedido.

       - Agora já está tudo bem. Eles tiveram o que mereciam, as fotografias foram destruídas – Murmurou ele, ainda comigo agarrada ao seu peito – Resolveu-se tudo, Neryn. Eles tiveram o que mereciam, ficaram mais negros do que eu.

       Cabisbaixa, limpei as lágrimas que restavam no meu rosto e forcei-me a acalmar. Lentamente, subi o olhar até ao seu. Jeremy tinha uns olhos castanhos lindos e tranquilizadores. O efeito não me era indiferente.

       - Obrigada.

       Continuámos abraçados por mais algum tempo. Ele ia passando as mãos pelas minhas costas, pelos meus ombros, pelo meu rosto. O seu toque era uma onda de calma e paz em mim. Era o conforto que precisava e nos braços dele sentia-me novamente segura.

       - Lamento muito que tenhas tido de passar por isto. Não voltará a acontecer, prometo.

       Eu acreditava nele. – Lamento que tenhas visto o que viste. Lamento essas marcas na tua cara. São culpa minha.

       - Estás a ser tonta. Nada é culpa tua, nada – repetiu – Só vi uma fotografia e foi sem querer. Juro que não vi muito, apenas o teu rosto…

       - Não, também viste a minha cicatriz. Vejo isso no teu olhar. Deves estar a lembrar-te daquela horrenda linha agora mesmo. – Suspirei e saí do seu abraço.

       Deambulei pelo seu quarto até o meu olhar recair novamente nos seus desenhos. Só então reparei que, entre eles, havia um de uma mulher e era…eu. No desenho tinha um ar tão feliz, forte e corajoso. Neste momento não era aquela rapariga e nem ideia fazia de como ele conseguira captar uma energia assim demim. No desenho eu era linda.

       Senti Jeremy aproximar-se atrás de mim. Pelo silêncio, sabia que ele estava embaraçado. Virei-me para o encarar, detestando ter novas lágrimas a brilharem nos meus olhos.

       - Depois daquilo que viste, ainda me achas bonita? Estou marcada eternamente por aquela cicatriz e …

       Não acabei de falar pois Jeremy puxou-me contra si e cruzou o seu olhar com o meu. Nele via apenas uma determinação e admiração que não entendia – Não és  bonita – Mordi o lábio por um segundo – És linda, sempre o foste. A beleza exterior não é tudo e não consideres a tua cicatriz como uma imperfeição horrenda quando não o é. É parte de ti, parte do teu corpo, parte da tua beleza que me encanta há tanto tempo. Para além disso és maravilhosa, bondosa. A tua beleza interior é especial. Nunca te vi mais linda.

       As palavras dele deixaram-me muda. Uma lágrima solitária percorreu o meu rosto até ser travada por ele. Deixei que a sua mão envolvesse o meu rosto e foi uma questão de tempo até a outra também o fazer. O nosso olhar não se descruzou e nele havia uma vibração intensa que eu já sentira antes. Os nossos lábios aproximaram-se sem hesitação e deixei-me mergulhar na sensação deslumbrante do seu beijo. O meu coração batia forte e descompassada. Apostava que o dele também.

       A necessidade de ar fez-nos acabar – temporalmente – o beijo. Eu estava sem fôlego, atónita e completamente extasiada. E entre tudo isto ainda estava feliz, com um coração preenchido e aquecido, um rapaz bom e espantoso há minha frente.

       - Devia ter dito tudo isto há muito tempo atrás. Sempre que me cruzava contigo nos corredores…

         - … essas palavras passavam pela minha cabeça – Completei.

       Jeremy sorriu, exibindo umas covinhas sensuais.

       - Não cheguei demasiado tarde?

       - Mais vale tarde do que nunca – Sem deixar margem para mais palavras, voltei a abraçar-me ao seu corpo e reclamar aqueles seus lábios que a partir de agora seriam meus e só meus. Tal como os meus seriam seus e só seus.

                Era o início do nosso nós.

 

Aqui têm a segunda parte da oneshot. Ficou bem maior do que esperei e aquilo que acabaram de ler corresponde a quatro páginas de Word. Espero que tenham gostado igualmente da segunda parte. Este fim foi para ser mais romântico, mas tentei não ser tão clichê como poderia. Muito obrigada pelos comentários no último post e por qualquer feedback que dêm neste!

Foi esta a história de Neryn e Jeremy, adorei escrever e a seguir a isto vêm dois oneshots que ainda não comecei a escrever, mas que já estão delineados e prometo que vou escrever. Devem vir algures nas próximas semanas!

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Sacha Hart
PerfilBlogTumblr


2 Online
of

3177 Visits




11 comentários

De Ynis a 26.05.2014 às 20:00

''Vós, mulheres, não têm nenhum sexto sentido. Isso é um mito.''.. um certo italiano disse-o uma vez, js.. logo, o sexto sentido dela é apenas um bando de ''hormonas loucas''.. muahahahah y______y
e mais uma vez, os erros ortográficos da sacha, aparecem para dizer um olá!
eu também gostei da segunda parte, tanto quanto a primeira. e mesmo que tenha sido um cliché, em termos de ser um final feliz, até agora foi o final mais fixe que já escreveste. e o que sem dúvida, mais gostei.

De Ynis a 26.05.2014 às 20:18

eu tenho memórias para tudo e mais alguma coisa.. ê_ê
eu vi alguns erros, principalmente uma falta acento num E u_u

De Ynis a 26.05.2014 às 20:19

ham.. e agora vou fazer uma coisa que quis fazer à pouco e_e

FIRSSSSSSSSSSSSTTTT \O/

De Sara a 26.05.2014 às 20:23

que lindo, adorei!
tens um jeito nato para isto :)

De francis marie a 26.05.2014 às 21:32

Adorei a oneshot, é tão linda *-*

De lostdreams a 26.05.2014 às 21:44

gostei imenso desta segunda parte. está excelente
mal posso esperar por ler mais oneshots tuas, gosto muito, tu escreves tão bem!
beijinhos

De • Smartie a 27.05.2014 às 01:01

Adorei esta segunda parte da one-shot, foi realmente querida :3
Fico à espera de mais coisinhas tuas! :)
Beijinhos*

De Silver Sky a 27.05.2014 às 11:41

gostei muitoooooooooooooo .)

De twilight_pr a 28.05.2014 às 18:34

Ah adorei sem dúvida esta parte. Foi muito sentida.
E por acaso saber que ele a acha bonita depois de ter visto a cicatriz e as suas palavras para ver que para ele, a Neryn era a mais bonita *-*
Adorei mesmo!

De andyjopanda a 26.06.2014 às 10:52

Adorei a tua one shot, ambas as partes, o jeremy era muito querido e protetor, e a neryn era doce e merecia alguém como ele.
Gostei mesmo muito :D

Comentar post


Pág. 1/2