Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]



{oneshot} Saved

por sacha hart, em 28.12.13

 

Sentia o doce balançar das ondas por baixo de mim. O ritmo lento e sinuoso abanava a ponte, fazendo tremer o soalho sob os meus pés. Simultaneamente a maresia impregnava o vento, a fresca brisa que se juntava ao pôr-do-sol iminente.

Caminhei até ao fim da ponte e abracei o meu corpo. Não era frio. Pelo menos não o frio que se resolvesse com uma camisola quentinha. Era outro tipo de frio, daquele que necessita de um abraço para resolver.

- Mas disso não vou ter, não é? – Murmurei para mim mesma, contendo as lágrimas de se derramarem pela minha face. – Estou sozinha. Não é novidade, já devia estar habituada.

Ao invés de continuar a lista infinita de azares na minha vida, sentei-me na borda da ponte. Tirei os meus Converse e mergulhei os pés dentro de água. Gelada, como seria de esperar. Não me importei. Era bom sentir alguma coisa, mesmo que fosse a mera sensação anestesiante do gelo.

Suspirei, desagradada com os meus pensamentos. Não tinha vindo até ali para me deitar abaixo nem ter pena de mim mesma. – Mas porque vim, afinal? – Era difícil saber. Tivera uma inclinação a sair de casa, pegar na minha bicicleta e pedalar até ali. Afinal de contas era o último dia que passava nesta cidade e aquele era sem dúvida o meu sitio favorito.

Porque foi aqui que o conheci. Foi aqui que demos as mãos e olhámos apaixonadamente um para o outro. Foi aqui que ele me beijou pela primeira vez. Foi aqui que nos abraçámos enquanto assistíamos ao nascer do sol. Foi aqui que ele disse que me amava… e foi aqui que mais tarde se despediu de mim, para nunca mais o ver.

- Já não importa mais – jurei a mim mesma, fazendo um esforço redobrado para não começar a chorar. – Ele foi-se embora porque quis. Agora sou eu que me vou embora.

Limpei os olhos com as mangas da camisa e levantei-me. Por momentos os meus pés não quiseram mexer, estavam congelados. Desequilibrei-me e nadei no ar, tentando encontrar um equilíbrio que não consegui encontrar.

A última coisa que esperava que acontecesse era cair ao mar. O choque impediu-me de nadar, de salvar a minha vida. A água gelada envolveu o meu corpo, tornando-me difícil respirar. Por um ou dois minutos lutei, tentando manter-me à tona. 

Para quê? Para quê lutar se não tens nada pelo qual viver? Deixa-te ir, é tão fácil…

O mundo ficou completamente negro para mim.

 

- - - -

 

- Naya, estás a ouvir-me?

- Um, dois, três… Um, dois, três…

O som não eram para mim mais do que confusos ruídos. Aliás, tudo o que estava a acontecer era confuso e enervante.

- Não desistas, Nay. Não te atrevas a deixar-me!

Havia ar a entrar para os meus pulmões. Havia novamente um coração a bater. Haviam lábios a tocar nos meus, lábios quentes e sedosos, lábios que eu conhecia…

Tossi toda a água que tinha engolido e tentei abrir os olhos. – John – Eu estava novamente em choque mas não era, de todo, pela quase-morte experiência. Era por causa dele. – Morri mesmo. Fui desta para melhor – Exclamei a entrar em histerismo. – Tu estás morto. Então eu devo estar morta também, faz sentido – murmurei com a voz carregada de puro pânico.

- Naya, acalma-te! – Ele segurou em mim e abraçou-me contra o seu corpo. Foi demais para mim. Comecei a soluçar, fui completamente a baixo. A última vez que estivera assim fora quando soubera da morte dele. – Não morreste. Acabei de te salvar. Mas que ideia foi esta, de te mandares ali para dentro? Queres matar-te!?

Arranjei coragem para olhar para ele. Os profundos olhos cinzentos cruzaram-se com os meus. Bastou esse olhar para o meu corpo aquecer.

- Não me atirei, foi um acidente – retorqui – E isto é um pesadelo, então, porque tu estás morto… Foste para longe de mim e morreste. – Solucei novamente.

- Eu não morri – Corrigiu John.

Louca. Eu só podia estar a ficar louca, se é que já não estava de vez. Comtemplei-o e apercebi-me de que ele mudara. John estava mais magro, mais moreno. Tinha barba, algo que eu nunca vira nele. Os braços deles agarravam-me com mais força e convicção do que eu alguma vez me recordava. Parecia tudo tão, tão real mas…

- Eu não morri, Naya – repetiu – Enganaram-te, e a mim.

Quis perguntar-lhe o que raios estava ele a falar. Fui interrompida pelo meu próprio corpo que começou a tremer incontrolavelmente, até que respirar voltou a ser difícil.

- Não! Não! – Foram as últimas palavras que proferi ao inteirar-me de que ele estava vivo. Não sabia como mas estava. E o meu mundo estava a ficar negro outra vez. Esta não podia ser a última vez que o via. Por favor, que não seja!

 

- - - - -

 

Quando abri os olhos novamente já não havia cheiro a maresia nem o baloiçar das ondas. Já não havia sol mas sim noite cerrada. O frio eclipsara-se pois agora havia calor e uma mão quente a segurar a minha.

John estava sentado ao lado da minha maca. Preocupação e receio preenchiam os seus belos olhos que me miravam intimamente. Ambos parecíamos que tínhamos passado pelo Inferno e voltado.

- Ainda bem que estás de volta – Acabou ele por dizer, sorrindo. Oh como eu sentira falta daquela sorriso!

- Então não estou morta? – Perguntei meio a medo, com a voz meio arranhada e tremida.

- Não, tontinha, não estás.

- Preciso que me expliques como é que estás aqui – pedi.

Ele ficou tenso por uns segundos. Depois apertou firmemente a minha mão – Sei que te disseram que morri. Claramente, é mentira. Estive os últimos quatro meses em missão no Iraque. – Escutei-o com atenção -  Há quatro semanas sofremos um atentado na base e muitos corpos ficaram sem identificação tal era o estado em que… - Ele parou. Desta vez fui eu quem lhe apertou a mão para o incentivar a continuar – Fui rebocado para outra cidade mas um dos oficiais viu a minha placa num dos corpos e identificou-o como sendo eu. Para o exército, aquele morto tinha o meu nome e foi essa morte que vos foi informada.

Os meus olhos embaciaram. A explicação fazia sentido mas doía saber que tinha sofrido nas últimas semanas, sofrido o luto por ele quando fora outrem que morrera.

John prosseguiu – Só dei conta pela confusão quando parei de receber cartas tuas. Não acreditaram em mim e só consegui resolver o problema quando pisei solo americano outra vez, ou seja, anteontem.

Mordi o lábio, impedindo que as lágrimas caíssem. Apesar da sua explicação havia uma parte que eu sofrera e não fora pela sua morte.

- Não morreste mas podias ter sido tu. Aquele corpo podias ter sido tu. Eu passei três meses em branco a pensar que lá estavas tu, no meio do perigo e a quilómetros de distância de casa. Temia todos os dias receber uma chamada com más notícias. Há quatro semanas recebi-a – a minha voz quebrou – Eu pedi-te que não fosses, John! Mas tu abandonaste-me na mesma. – Larguei a sua mão e fechei os olhos.

- Eram só mais cinco meses em missão, Nay. Não podia abandonar os meus companheiros na nossa última missão. Era a vida de inocentes que estava em risco, eu tinha de ajudar.

Eu sabia-a. Odiava mas sabia. Ele era tão bom, sempre fora. Preocupava-se mais com os outros do que consigo mesmo. Era por isso que o amava contudo abominava que ele estivesse na guerra, odiara que se tivesse alistado para aquela missão depois de ter cumprido todo o serviço que devia.

- Nós íamos casar, John. Tu foste embora na mesma.

- Nós íamos casar ou nós ainda vamos casar? – Perguntou ele, fazendo todas os outros pensamentos desaparecerem – Eu voltei dos mortos, tu acabaste de fazer o mesmo. Eu estava no sítio certo à hora certa para te salvar. Durante os meses no Iraque foi a pensar em ti, a lutar por ti, que me salvei. Se isto não é destino, não sei o que será. Quero casar-me contigo, Naya Marie.  – O sorriso voltou para a face dele.

Como era suposto resistir àquele sorriso? Ainda me fazer suspirar e bater o meu coração mais depressa. Ele estava vivo. O John estava vivo. Era motivo para celebrar – motivo para casar com o homem da minha vida!

- Prometes-me que nunca mais te vais embora?

- Prometo.

- Então vem aqui e beija-me de uma vez – pedi, quase desesperada.

John foi rápido a satisfazer o meu pedido. Inclinou-se para mim até que os seus lábios tocaram nos meus. Fogo, paixão, amor. Tudo naquele gesto era poderoso e quente e o meu coração deixou de ter frio.

 

Antes de mais agradeço por todas as fotos que mandaram. Adorei todas, e gostei principalmente do desafio que me propuseram com cada uma delas. Escolher uma foi muito dificil, por isso limitei-me a deixar que a minha imaginação começasse a ser drenada até fazer jus a uma das imagens. Acabou por ser esta a escolhida e por isso dedico esta oneshot à Liz, que foi quem sugeriu esta fotografia.

Mas, como foram tantas e adorei as outras, vou escolher mais uma e fazer um segundo oneshot! Até lá, espero que tenham gostado desta oneshot. 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Sacha Hart
PerfilBlogTumblr


2 Online
of

3177 Visits




15 comentários

De Ynis a 28.12.2013 às 17:34

algo que não me faça lembrar a tua fic x)

Comentar post